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Esporte de reis pode ser solução para controles de pragas

Gavião Asa de Telha é ferramenta essencial para o controle de fauna

A relação dos homens com os animais sempre foi muito comum na história da humanidade. Cavalos foram companheiros de longas batalhas – e considerados pelos cavaleiros Templários, por exemplo, seres de grande valia a ponto de não se separem sob qualquer circunstância, exceto, logicamente, pela morte – cães são o melhor auxílio pra caça, aves de todas as espécies sobrevoam a literatura para levar cor e som aos ouvidos das pessoas. Isso sem contar répteis, mamíferos e felinos de diversos habitats que despertaram curiosidade e foram expostos mundo a fora sob tendas circenses e espetáculos mambembes que levaram alegria, esperança e alento à população deste mundo.

Na modernidade também não é diferente. O homem sempre dedicou seu carinho, amor e companheirismo a diversos animais. Houve inclusive um capítulo dessa história em que japoneses desenvolveram o bichinho virtual, uma nova pegada do relacionamento entre homens e animais. Ainda que de modo eletrônico, diferente de tudo que se tem registro, tornou-se algo para marcar a história e propor uma forma distinta de interação entre espécies. A ideia não vingou, mas instruiu diversas crianças sobre a importância de cuidar do seu bichinho, de zelo com o próximo – ainda que este seja dependente de bateria – contribuindo para a composição necessária na personalidade de todos no que diz respeito a responsabilidade.

Em análise a história da humanidade se torna incômodo pensar um mundo em que a relação homem e animal seja algo pertencente apenas ao passado. Em que pese o fato de que o ser humano estar cada vez mais distante de sua origem primitiva, alguma parte do DNA fixa a espécie à sua gênese. Ainda existe a necessidade de estar próximo a seres de outra natureza como homens de outrora, que cortaram a mata ou desbravaram regiões inóspitas contando com a força e a destreza de companheiros quadrúpedes, com o latido de alerta dos cães e o alento de animais de menor porte, sem contar os ancestrais indígenas, que mesmo inseridos em cultura tão distante da cultura branca, ainda mantêm a relação com o mundo animal de forma semelhante a qualquer outra forma de vida.

Absolutamente nada passa despercebido ao Gavião Asa de Telha

Essa relação, por mais moderna que seja, sempre será atemporal e inexplicável. Há quem dedique mais zelo a animais do que membros de sua própria espécie, que o ame mais do que componentes de sua família de sangue; há bichos que valem infinitamente mais do que seres humanos; que dormem muito melhor que os animais racionais, que comem com mais frequência, inclusive, que muitas crianças mundo a fora, que dependem do fruto – melhor dizendo, do plástico – que colhem em lixões para conseguir pulverizar um pouco de comida em seus estômagos.

O fato é que nesta vida, quando o assunto é relação homem e animal, não há como precisar quando isso foi criado, mas é bem verdade que essa interação foi transformada diversas vezes, copiada, e em alguns momentos caiu no esquecimento; se distanciou e com certeza se reformulou, ou simplesmente ressurgiu, como nas passarelas que geralmente são linhas atuais de antiguidades moderníssimas onde pessoas esquias e pálidas percorrem sob olhares estranhos de gente conceituada.

A história se repente em algum canto do mundo quando menos se espera. Quem diria, por exemplo, que em Rondônia, início dos confins da Amazônia, um homem poderia assoviar para que um falcão viesse de longe pousar em suas mãos? Isso é muito comum em diversos cantos do planeta. Já foi atividade de reis e até mesmo ferramenta de exércitos. Reformulada, atualmente é mais fácil conhecer a falcoaria como um hobbie, e até mesmo como profissão Brasil a fora.

Ave reconhece assovio de treinador e vem encontrá-lo

Carioca de chiar a fala, biólogo de canudo nas mãos há 12 anos, José Thiago Barbosa Baldine, ou simplesmente Thiago, mostra com destreza as habilidades que desenvolve ao lado da sua ave, um gavião Asa de Telha que não estranha a presença de humanos. De acordo com ele, a relação homem e aves de rapina mais antiga é datada de 4 mil anos antes de Cristo. Reformulada, atualmente Thiago e seu Gavião dão continuidade à história atuando de várias formas, sem sombra de dúvidas impensadas por homens que iniciaram essa atividade.

Ele é especialista em manejo de fauna e já foi biólogo responsável técnico por utilizar a falcoaria no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. Isso significa que ele e a equipe da qual fazia parte eram responsáveis por retirar as aves que perambulavam na área de pouso do aeroporto colocando em risco os passageiros. Essas aves poderiam ser sugadas pelas turbinas ou colidir com as aeronaves, causando problemas de grande magnitude. A ferramenta principal era a velocidade e destreza de aves de rapina, que com toda eficiência que a natureza lhes deu, capturavam essas aves, que eram recolhidas pelos biólogos.

Outro segmento do trabalho de Thiago é o manejo de aves exóticas ou nativas que podem causar problemas de saúde aos humanos. “Os pombos são aves que geralmente causam grandes transtornos. No Rio é comum utilizarmos a falcoaria para combater a infestação dessas aves. O trabalho basicamente consiste na captação de animais para limpar o local”, explica.

Gavião passa por treinamento para aperfeiçoar suas ações noturnas

O município de Vilhena (RO) por exemplo se tornou ponto de parada das Andorinhas. Todos os anos elas foram grupos enormes que promovem espetáculos diários de super manobras que encantam e enraivecem, ao mesmo tempo, as pessoas. Essa relação, muito embora, não haja comum acordo vem se tornando um problema social, vez que as aves deixam fezes por todos os lados que passam. O mau cheiro toma conta dos pontos de parada e a saída até hoje foi cortar as árvores para afugentar as Andorinhas.

Thiago explica que falcões e gaviões podem ser a melhor saída para este caso. “Eles geralmente penetram-se nos bandos e os espantam. As andorinhas podem encontrar outros pontos fora da cidade ou abrigarem-se em outras regiões dentro do perímetro urbano, mas no ponto onde o gavião ou o falcão passou, raramente o grupo volta”, conta.

A atividade não é apenas de caráter remuneratório. Qualquer pessoa pode ser tornar adepto da falcoaria e sentir na pele as emoções anteriormente reservadas a membros da nobreza. Basta comprar os equipamentos necessários e adquirir um animal. Atualmente há três tipos de aves de rapina mais utilizadas nesta cultura: o gavião Asa de Telha, o Falcão de Coleira e famoso Falcão Peregrino que pode atingir mais de 350 quilômetros por hora e é considerado o animal mais veloz do mundo.

Essa relação pode ser acompanhada também pelas redes sociais. Thiago mantém a página Rondohawk Controle de Fauna no site de relacionamentos Facebook, onde apresenta o cotidiano do seu trabalho e de seu relacionamento com aves de rapina.

Relação entre homem e animal é reinventada e adaptada ao mundo moderno

Algumas partes do mundo desenvolveram-se a ponto de tornar imaginável cotidianos de décadas atrás. Entretanto, o mundo animal gera barreiras culturais intransponíveis, provando que mesmo toda evolução por mais assustadora que seja, ainda será capaz de manter relações milenares. O equilíbrio entre homens e animais e a forma como as espécies se acostumam e adaptam-se às novas exigências humanas é uma prova de que a resistência não é apenas algo da cultura do homem. Ainda que em Dubai, por exemplo, haja prédios referência na arquitetura, que o ruído de carros supermodernos e caros – que o petróleo pode proporcionar – encantam os menos abastados, ainda há o respeito aos camelos. Criaturas feias, mas dotadas de força e tradição – eles foram imortalizados com uma metáfora bíblica – suficientes para permanecerem-se na história dos homens com respeito e credibilidade que muitos seres humanos dificilmente irão conseguir.

 

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